O país é o meu, mas não a bandeira...
Octávio dos Santos* (Jul-2004)

... Nem o hino. Na verdade, não alinhei nessa “nacional-parolice” histérica que alastrou em Portugal durante o Campeonato da Europa de Futebol deste ano de 2004. Não decorei a casa ou o carro com a “vermelha e verde” nem me pus a berrar “A Portuguesa”... porque estes “símbolos nacionais” não são os meus. Não os reconheço como tal. Sou monárquico e não republicano, pelo que a minha bandeira e o meu hino são outros. De outras cores e de outros sons. E mesmo que decidisse participar com os “meus” símbolos não seria de certeza por causa do pontapé na bola.

Porém, a república em Portugal adora o futebol. Tanto que até parece não haver mais nada! Do chefe de Estado ao presidente da câmara, passando pelo ministro e pelo deputado, eles quase não perdem uma oportunidade de irem para a bancada. E a 4 de Julho último, no Estádio da Luz, lá estavam eles, todos os “altos dignatários” da Nação, prontos para assistirem àquela que foi... a pior derrota da história do futebol nacional. Se ainda havia dúvidas, elas desfizeram-se de vez. Nem tudo o que... luz... é ouro: depois dos “Magriços” e dos “Patrícios”, eis, não os “Tugas”, mas sim os “Mamedes” (exactamente, em “homenagem” ao Fernando...), ou seja, a “geração (supostamente) de ouro”. Que será sempre lembrada como a geração dos perdedores: uma vez mais, falharam numa hora da verdade, num momento decisivo; não tiveram ânimo, não revelaram capacidade de reacção, não mostraram competência; não assumiram as (suas) responsabilidades nem corresponderam às expectativas (dos outros). Azarados ou aselhas? Já conheciam os perigos, haviam visto os avisos, mas nem assim conseguiram ganhar. Esta derrota é indesculpável... porque eles sabiam, podiam e deviam ter feito mais!

Porém, esta derrota foi, ao mesmo tempo, a maior “vitória moral” de sempre do “desporto-rei” português. Porque, afinal, ficámos em segundo lugar... isto é, os primeiros dos últimos! Somos vice-campeões... e os outros reconhecem que somos bons anfitriões! A confirmação veio da UEFA: organizámos o melhor campeonato da Europa de sempre! Há esse “pequeno” pormenor de termos perdido a final com a mesma equipa/país que nos havia vencido no jogo de abertura, mas que importância isso tem quando provámos que somos um país que “sabe receber quem nos visita?” Com a república, a nossa “vocação” de criados dos estrangeiros – turismo, uma actividade sem dúvida fundamental! - tornou-se um autêntico desígnio nacional. “Oh sim, por favor, entrem... durmam nas nossas camas... deixem-nos limpar o vosso lixo... e, já agora, fiquem com a taça! Muito obrigado!”

Em Portugal o futebol é um mau negócio para o povo: não dá o retorno correspondente, proporcional, ao investimento financeiro, e sobretudo emocional, que nele se faz. E continua a ser um terreno propício às mais pindéricas suposições e superstições: as “coincidências histórico-estatísticas”; as promessas de ir a Fátima; a “gravata da sorte” do primeiro ministro. No fundo, no fundo, foi muito bem feito. Este povo não tem emenda. Continua a entrar em euforias desmedidas e em triunfalismos prematuros. E irá empolgar-se outra vez e sofrer mais uma desilusão. Não há maneira de aprender que só se deve comemorar... se houver um autêntico motivo para isso. E preparem-se: devem vir aí mais uns quantos fados sobre o destino e mais uns tantos ensaios literários sobre a saudade!

Todavia, se no dia 4 tivemos “tragédia”, no dia 5 contemplaram-nos com “comédia”. Porque deu mesmo vontade de rir ver toda a “nossa selecção” – jogadores, técnicos, dirigentes – perfilada no Palácio de Belém para ser agraciada por Jorge Sampaio com a Ordem do Infante D. Henrique! Uma cerimónia transmitida em directo e integralmente – e simultaneamente – pelas três estações de televisão. Ridículo! Três dias depois, em S. Bento, outro elogio, este pelo parlamento. Patético! Está confirmado: premiar, homenagear, condecorar os vencidos é um dos valores máximos da “ética republicana” (à portuguesa)!

Entretanto, vários, e verdadeiros, vencedores, que os temos, no desporto (em outras modalidades), na cultura, na economia, na ciência, nem sequer são conhecidos, quanto mais distinguidos!

E também na política. Ironicamente, a maior vitória internacional recentemente obtida por Portugal deveu-se a um político. José Manuel Durão Barroso foi convidado – escolhido, preferido por muitos mais países do que todos os outros supostos “candidatos” - a ser o próximo Presidente da Comissão Europeia. Um cargo de elevadíssima importância e de altíssimo prestígio que só pode honrar – e beneficiar – Portugal, o que até é reconhecido por aqueles – como eu – que são anti-europeístas (isto é, anti-União Europeia, anti-federalismo europeu). No entanto, o que aconteceu? Em vez de se congratular, a “opinião pública” – ou, pelo menos, uma grande parte, com destaque para uma “esquerda” cada vez mais ordinária – preferiu lamentar a “gravidade” da “crise” que resultou da demissão de Durão Barroso e, consequentemente, do seu Governo. Tanta hipocrisia, tanta inveja, tanta mesquinhez! Tanta estupidez! Tudo ao contrário, o que é tão típico deste país: os que fracassaram, “coitadinhos”, merecem a nossa compreensão e o nosso apoio... e ainda levam medalhas; os que triunfaram (lá fora) levam com insultos por terem “fugido” (!?) e “traído” (?!) os seus eventuais compromissos (cá dentro).

Ser português é, por vezes, e na verdade, um fardo mais difícil de suportar do que o habitual. Há alturas em que se está mesmo muito por baixo, em que se sente vergonha de se viver aqui. Nesta rasca, reles, república portuguesa.

* Nota: o texto publicado é da exclusiva responsabilidade do autor.

Texto publicado no Diário Digital a 16-Jul-2004